quinta-feira, 16 de outubro de 2014

SEGUNDA CONCEPÇÃO DE LIBERDADE

A segunda concepção da liberdade foi, inicialmente, desenvolvida por uma escola de Filosofia do período helenístico, o estoicismo, ressurgindo no século XVII com o filósofo Espinosa e, no século XIX, com Hegel e Marx. Eles conservam a ideia aristotélica de que a liberdade é autodeterminação ou ser causa de si. Conservam também a ideia de que é livre aquele que age sem ser forçado nem constrangido por nada ou por ninguém e, portanto, age movido espontaneamente por uma força interna própria. No entanto, diferentemente de Aristóteles e de Sartre, não colocam a liberdade no ato de escolha realizado pela vontade individual, mas na atividade do todo, do qual os indivíduos são partes.
O todo ou a totalidade pode ser a Natureza – como para os estóicos e Espinosa -, ou a Cultura – como para Hegel – ou, enfim, uma formação histórico-social – como para Marx. Em qualquer dos casos, é a totalidade que age ou atua segundo seus próprios princípios, dando a si mesma suas leis, suas regras, suas normas.
Essa totalidade é livre em si mesma porque nada a força ou a obriga do exterior, e por sua liberdade instaura leis e normas necessárias para suas partes (os indivíduos). Em outras palavras, a liberdade, agora, não é um poder individual incondicionado para escolher – a Natureza não escolhe, a Cultura não escolhe, uma formação social não escolhe -, mas é o poder do todo para agir em conformidade consigo mesmo, sendo necessariamente o que é e fazendo necessariamente o que faz.
Como podemos observar, essa concepção não mantém a oposição entre liberdade e necessidade, mas afirma que a necessidade (as leis da Natureza, as normas e regras da Cultura, as leis da História) é a maneira pela qual a liberdade do todo se manifesta. Em outras palavras, a totalidade é livre porque se põe a si mesma na existência e define por si mesma as leis e as regras de sua atividade; e é necessária porque tais leis e regras exprimem necessariamente o que ela é e faz.
Liberdade não é escolher e deliberar, mas agir ou fazer alguma coisa em conformidade com a natureza do agente que, no caso, é a totalidade. O que é, então, a liberdade humana?
São duas as respostas:
1. a primeira afirma que o todo é racional e que suas partes também o são, sendo livres quando agirem em conformidade com as leis do todo, para o bem da totalidade;
2. a segunda afirma que as partes são de mesma essência que o todo e, portanto, são racionais e livres como ele, dotadas de força interior para agir por si mesmas, de sorte que a liberdade é tomar parte ativa na atividade do todo. Tomar parte ativa significa, por um lado, conhecer as condições estabelecidas pelo todo, conhecer suas causas e o modo como determinam nossas ações, e, por outro lado, graças a tal conhecimento, não ser um joguete das condições e causas que atuam sobre nós, mas agir sobre elas também. Não somos livres para escolher tudo, mas o somos para fazer tudo quanto esteja de acordo com nosso ser e com nossa capacidade de agir, graças ao conhecimento que possuímos das circunstâncias em que vamos agir.

Existe ainda uma terceira concepção que procura unir elementos das duas anteriores. Afirma, como a segunda, que não somos um poder incondicional de escolha de quaisquer possíveis, mas que nossas escolhas são condicionadas pelas circunstâncias naturais, psíquicas, culturais e históricas em que vivemos, isto é, pela totalidade natural e histórica em que estamos situados. Afirma, como
a primeira, que a liberdade é um ato de decisão e escolha entre vários possíveis.
Todavia, não se trata da liberdade de querer alguma coisa e sim de fazer alguma coisa, distinção feita por Espinosa e Hobbes, no século XVII, e retomada, no século XVIII, por Voltaire, ao dizerem que somos livres para fazer alguma coisa quando temos o poder para fazê-la.
Essa terceira concepção da liberdade introduz a noção de possibilidade objetiva.
O possível não é apenas alguma coisa sentida ou percebida subjetivamente por nós, mas é também e sobretudo alguma coisa inscrita no coração da necessidade, indicando que o curso de uma situação pode ser mudado por nós, em certas direções e sob certas condições. A liberdade é a capacidade para perceber tais possibilidades e o poder para realizar aquelas ações que mudam o curso das
coisas, dando-lhe outra direção ou outro sentido.

A liberdade, porém, não se encontra na ilusão do “posso tudo”, nem no conformismo do “nada posso”. Encontra-se na disposição para interpretar e decifrar os vetores do campo presente como possibilidades objetivas, isto é, como abertura de novas direções e novos sentidos a partir do
que está dado.


Espinosa afirma que o ser humano é mais livre na companhia dos outros do que na solidão e que “somente os seres humanos livres são gratos e reconhecidos uns aos outros”, porque os sujeitos livres são aqueles que “nunca agem com fraude, mas sempre de boa-fé”.

conforme Marilena Chauí

O SUJEITO DO CONHECIMENTO

Manutenção do privilégio do sujeito do conhecimento

Conservando-se fiel à tradição moderna e kantiana, Husserl privilegia a consciência reflexiva ou o sujeito do conhecimento, isto é, afirma que as essências descritas pela Filosofia são produzidas ou constituídas pela consciência, enquanto um poder para dar significação à realidade.
A consciência de que fala o filósofo não é, evidentemente, aquela de que fala o psicólogo. Para este, a consciência é o nome dado a um conjunto de fatos externos e internos observáveis e explicados causalmente. A consciência a que se refere o filósofo é o sujeito do conhecimento, como estrutura e atividade universal e necessária do saber. É a Consciência Transcendental ou o Sujeito
Transcendental.
Qual é o poder da consciência reflexiva? O de constituir ou criar as essências, pois estas nada mais são do que as significações produzidas pela consciência, enquanto um poder universal de doação de sentido ao mundo.

A consciência não é uma coisa entre as coisas, não é um fato observável, nem é, como imaginava a metafísica, uma substância pensante ou uma alma, entidade espiritual. A consciência é uma pura atividade, o ato de constituir essências ou significações, dando sentido ao mundo das coisas. Estas – ou o mundo como significação – são o correlato da consciência, aquilo que é visado por ela e dela recebe sentido. Não sendo uma coisa nem uma substância, mas puro ato, a consciência é uma forma: é sempre consciência de. O ser ou essência da consciência é o de ser sempre consciência de, a que Husserl dá o nome de intencionalidade.
A consciência é um ato intencional e sua essência é a intencionalidade, ou o ato de visar as coisas, dando-lhes significação. O mundo ou a realidade é o correlato intencional da consciência. Assim, por exemplo, perceber é o ato intencional da consciência, o percebido é o seu correlato intencional e a percepção é a unidade interna e necessária entre o ato e o correlato, entre o perceber e o percebido. É por esse motivo que, conhecendo a estrutura intencional ou a essência da consciência, se pode conhecer a essência da percepção (ou da imaginação, da memória, da reflexão, etc.).

texto de Marilena Chauí, em Convite à Filosofia.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

ARISTÓTELES



AS CONCEPÇÕES DE ARISTÓTELES
A primeira grande teoria filosófica da liberdade é exposta por Aristóteles em sua obra Ética a Nicômaco e, com variantes, permanece através dos séculos, chegando até o século XX, quando foi retomada por Sartre. Nessa concepção, a liberdade se opõe ao que é condicionado externamente (necessidade) e ao que
acontece sem escolha deliberada (contingência).

Diz Aristóteles que é livre aquele que tem em si mesmo o princípio para agir ou não agir, isto é, aquele que é causa interna de sua ação ou da decisão de não agir.
A liberdade é concebida como o poder pleno e incondicional da vontade para determinar a si mesma ou para ser autodeterminada. É pensada, também, como ausência de constrangimentos externos e internos, isto é, como uma capacidade que não encontra obstáculos para se realizar, nem é forçada por coisa alguma
para agir. Trata-se da espontaneidade plena do agente, que dá a si mesmo os motivos e os fins de sua ação, sem ser constrangido ou forçado por nada e por ninguém.
Assim, na concepção aristotélica, a liberdade é o princípio para escolher entre alternativas possíveis, realizando-se como decisão e ato voluntário.
Contrariamente ao necessário ou à necessidade, sob a qual o agente sofre a ação de uma causa externa que o obriga a agir sempre de uma determinada maneira, no ato voluntário livre o agente é causa de si, isto é, causa integral de sua ação.

Sem dúvida, poder-se-ia dizer que a vontade livre é determinada pela razão ou pela inteligência e, nesse caso, seria preciso admitir que não é causa de si ou incondicionada, mas que é causada pelo raciocínio ou pelo pensamento.
No entanto, como disseram os filósofos posteriores a Aristóteles, a inteligência inclina a vontade numa certa direção, mas não a obriga nem a constrange, tanto assim que podemos agir na direção contrária à indicada pela inteligência ou razão. É por ser livre e incondicionada que a vontade pode seguir ou não os conselhos da consciência. A liberdade será ética quando o exercício da vontade estiver em harmonia com a direção apontada pela razão.
Sartre levou essa concepção ao ponto limite. Para ele, a liberdade é a escolha incondicional que o próprio homem faz de seu ser e de seu mundo. Quando julgamos estar sob o poder de forças externas mais poderosas do que nossa vontade, esse julgamento é uma decisão livre, pois outros homens, nas mesmas
circunstâncias, não se curvaram nem se resignaram.
Em outras palavras, conformar-se ou resignar-se é uma decisão livre, tanto quanto não se resignar nem se conformar, lutando contra as circunstâncias.
Quando dizemos estar fatigados, a fadiga é uma decisão nossa. Quando dizemos estar enfraquecidos, a fraqueza é uma decisão nossa. Quando dizemos não ter o que fazer, o abandono é uma decisão nossa. Ceder tanto quanto não ceder é uma decisão nossa.
Por isso, Sartre afirma que estamos condenados à liberdade. É ela que define a humanidade dos humanos, sem escapatória. É essa idéia que encontramos no poema de Carlos Drummond, quando afirma que somos maiores do que o “vasto mundo”. É ela também que se encontra no poema de Vicente de Carvalho,
quando nos diz que a felicidade “está sempre apenas onde a pomos” e “nunca a pomos onde nós estamos”. Somos agentes livres tanto para ter quanto para perder a felicidade.

texto de acordo com Marilena Chauí, Convite a Filosofia.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

A LIBERDADE

Três concepções filosóficas da liberdade
(segundo Marilena Chauí, em Convite à Filosofia)

Na história das ideias ocidentais, necessidade e contingência foram representadas por figuras míticas. A primeira, pelas três Parcas ou Moiras, representando a fatalidade, isto é, o destino inelutável de cada um de nós, do nascimento à morte.
Uma das Parcas ou Moiras era representada fiando o fio de nossa vida, enquanto a outra o tecia e a última o cortava, simbolizando nossa morte. A contingência (ou o acaso) era representada pela Fortuna, mulher volúvel e caprichosa, que trazia nas mãos uma roda, fazendo-a girar de tal modo que quem estivesse no alto (a boa fortuna ou boa sorte) caísse (infortúnio ou má sorte) e quem estivesse embaixo fosse elevado. Inconstante, incerta e cega, a roda da Fortuna era a pura sorte, boa ou má, contra a qual nada se poderia fazer, como na música de Chico Buarque: “Eis que chega a roda-viva, levando a saudade pra lá”.
As teorias éticas procuraram sempre enfrentar o duplo problema da necessidade e da contingência, definindo o campo da liberdade possível.
A primeira grande teoria filosófica da liberdade é exposta por Aristóteles em sua obra Ética a Nicômaco e, com variantes, permanece através dos séculos, chegando até o século XX, quando foi retomada por Sartre. Nessa concepção, a liberdade se opõe ao que é condicionado externamente (necessidade) e ao que acontece sem escolha deliberada (contingência).
Diz Aristóteles que é livre aquele que tem em si mesmo o princípio para agir ou não agir, isto é, aquele que é causa interna de sua ação ou da decisão de não agir.
A liberdade é concebida como o poder pleno e incondicional da vontade para determinar a si mesma ou para ser autodeterminada. É pensada, também, como ausência de constrangimentos externos e internos, isto é, como uma capacidade que não encontra obstáculos para se realizar, nem é forçada por coisa alguma para agir. Trata-se da espontaneidade plena do agente, que dá a si mesmo os
motivos e os fins de sua ação, sem ser constrangido ou forçado por nada e por ninguém.
Assim, na concepção aristotélica, a liberdade é o princípio para escolher entre alternativas possíveis, realizando-se como decisão e ato voluntário.
Contrariamente ao necessário ou à necessidade, sob a qual o agente sofre a ação de uma causa externa que o obriga a agir sempre de uma determinada maneira, no ato voluntário livre o agente é causa de si, isto é, causa integral de sua ação.
Sem dúvida, poder-se-ia dizer que a vontade livre é determinada pela razão ou pela inteligência e, nesse caso, seria preciso admitir que não é causa de si ou incondicionada, mas que é causada pelo raciocínio ou pelo pensamento.
No entanto, como disseram os filósofos posteriores a Aristóteles, a inteligência inclina a vontade numa certa direção, mas não a obriga nem a constrange, tanto assim que podemos agir na direção contrária à indicada pela inteligência ou razão. É por ser livre e incondicionada que a vontade pode seguir ou não os conselhos da consciência. A liberdade será ética quando o exercício da vontade
estiver em harmonia com a direção apontada pela razão.
Sartre levou essa concepção ao ponto limite. Para ele, a liberdade é a escolha incondicional que o próprio homem faz de seu ser e de seu mundo. Quando julgamos estar sob o poder de forças externas mais poderosas do que nossa vontade, esse julgamento é uma decisão livre, pois outros homens, nas mesmas circunstâncias, não se curvaram nem se resignaram.
Em outras palavras, conformar-se ou resignar-se é uma decisão livre, tanto quanto não se resignar nem se conformar, lutando contra as circunstâncias.
Quando dizemos estar fatigados, a fadiga é uma decisão nossa. Quando dizemos estar enfraquecidos, a fraqueza é uma decisão nossa. Quando dizemos não ter o que fazer, o abandono é uma decisão nossa. Ceder tanto quanto não ceder é uma decisão nossa.
Por isso, Sartre afirma que estamos condenados à liberdade. É ela que define a humanidade dos humanos, sem escapatória. É essa ideia que encontramos no poema de Carlos Drummond, quando afirma que somos maiores do que o “vasto mundo”. É ela também que se encontra no poema de Vicente de Carvalho, quando nos diz que a felicidade “está sempre apenas onde a pomos” e “nunca a
pomos onde nós estamos”. Somos agentes livres tanto para ter quanto para perder a felicidade.
A segunda concepção da liberdade foi, inicialmente, desenvolvida por uma escola de Filosofia do período helenístico, o estoicismo, ressurgindo no século XVII com o filósofo Espinosa e, no século XIX, com Hegel e Marx. Eles conservam a idéia aristotélica de que a liberdade é a autodeterminação ou ser causa de si. Conservam também a idéia de que é livre aquele que age sem ser forçado nem constrangido por nada ou por ninguém e, portanto, age movido espontaneamente por uma força interna própria. No entanto, diferentemente de Aristóteles e de Sartre, não colocam a liberdade no ato de escolha realizado pela vontade individual, mas na atividade do todo, do qual os indivíduos são partes.
O todo ou a totalidade pode ser a Natureza – como para os estóicos e Espinosa -,ou a Cultura – como para Hegel – ou, enfim, uma formação histórico-social –como para Marx. Em qualquer dos casos, é a totalidade que age ou atua segundo seus próprios princípios, dando a si mesma suas leis, suas regras, suas normas.
Essa totalidade é livre em si mesma porque nada a força ou a obriga do exterior, e por sua liberdade instaura leis e normas necessárias para suas partes (os indivíduos). Em outras palavras, a liberdade, agora, não é um poder individual incondicionado para escolher – a Natureza não escolhe, a Cultura não escolhe, uma formação social não escolhe -, mas é o poder do todo para agir em conformidade consigo mesmo, sendo necessariamente o que é e fazendo necessariamente o que faz.
Como podemos observar, essa concepção não mantém a oposição entre liberdade e necessidade, mas afirma que a necessidade (as leis da Natureza, as normas e regras da Cultura, as leis da História) é a maneira pela qual a liberdade do todo se manifesta. Em outras palavras, a totalidade é livre porque se põe a si mesma na existência e define por si mesma as leis e as regras de sua atividade; e é necessária porque tais leis e regras exprimem necessariamente o que ela é e faz.
Liberdade não é escolher e deliberar, mas agir ou fazer alguma coisa em conformidade com a natureza do agente que, no caso, é a totalidade. O que é, então, a liberdade humana?
São duas as respostas a essa questão:
1. a primeira afirma que o todo é racional e que suas partes também o são, sendo livres quando agirem em conformidade com as leis do todo, para o bem da totalidade;
2. a segunda afirma que as partes são de mesma essência que o todo e, portanto, são racionais e livres como ele, dotadas de força interior para agir por si mesmas, de sorte que a liberdade é tomar parte ativa na atividade do todo. Tomar parte ativa significa, por um lado, conhecer as condições estabelecidas pelo todo, conhecer suas causas e o modo como determinam nossas ações, e, por outro lado, graças a tal conhecimento, não ser um joguete das condições e causas que atuam sobre nós, mas agir sobre elas também. Não somos livres para escolher tudo, mas o somos para fazer tudo quanto esteja de acordo com nosso ser e com nossa capacidade de agir, graças ao conhecimento que possuímos das circunstâncias em que vamos agir.
Além da concepção de tipo aristotélico-sartreano e da concepção de tipo estóicohegeliano, existe ainda uma terceira concepção que procura unir elementos das duas anteriores. Afirma, como a segunda, que não somos um poder incondicional de escolha de quaisquer possíveis, mas que nossas escolhas são condicionadas pelas circunstâncias naturais, psíquicas, culturais e históricas em que vivemos, isto é, pela totalidade natural e histórica em que estamos situados. Afirma, como
a primeira, que a liberdade é um ato de decisão e escolha entre vários possíveis.
Todavia, não se trata da liberdade de querer alguma coisa e sim de fazer alguma coisa, distinção feita por Espinosa e Hobbes, no século XVII, e retomada, no século XVIII, por Voltaire, ao dizerem que somos livres para fazer alguma coisa quando temos o poder para fazê-la.
Essa terceira concepção da liberdade introduz a noção de possibilidade objetiva.
O possível não é apenas alguma coisa sentida ou percebida subjetivamente por nós, mas é também e sobretudo alguma coisa inscrita no coração da necessidade, indicando que o curso de uma situação pode ser mudado por nós, em certas direções e sob certas condições. A liberdade é a capacidade para perceber tais possibilidades e o poder para realizar aquelas ações que mudam o curso das
coisas, dando-lhe outra direção ou outro sentido.
Na verdade, a não ser aqueles filósofos que afirmaram a liberdade como um poder absolutamente incondicional da vontade, em quaisquer circunstâncias (como o fizeram, por razões diferentes, Kant e Sartre), os demais, nas três concepções apresentadas, sempre levaram em conta a tensão entre nossa liberdade e as condições – naturais, culturais, psíquicas – que nos determinam.

As discussões sobre as paixões, os interesses, as circunstâncias histórico-sociais, as condições naturais sempre estiveram presentes na ética e por isso uma ideia como a de possibilidade objetiva sempre esteve pressuposta ou implícita nas teorias sobre a liberdade.

A HERANÇA DE KANT

A herança kantiana

Após a solução kantiana para o problema da metafísica, esta não mais retornou à antiga concepção de conhecimento da realidade em si, mas caminhou no sentido inaugurado por Kant, conhecido como idealismo.
Por que idealismo?
Vimos que a Filosofia (na Antiguidade, na Idade Média e na Modernidade) era realista, isto é, partia da afirmação de que a realidade ou o Ser existem em si mesmos e que, enquanto tais, podem ser conhecidos pela razão humana. Vimos também que o realismo clássico ou moderno introduzira uma mudança no realismo antigo e medieval, pois exigira que, antes de iniciar uma investigação metafísica da realidade, fosse respondida a questão: “Podemos conhecer a realidade?”.
Em outras palavras, exigira que a teoria do conhecimento antecedesse a metafísica. Vimos, a seguir, o resultado dessa exigência: David Hume demonstrando que o conteúdo da metafísica são apenas nossas ideias e que estas são nomes gerais atribuídos aos hábitos psicológicos de associar os dados da sensação e da percepção. O sentimento subjetivo ou psicológico de regularidade, constância e frequência de nossas impressões são transformados em entidades metafísicas que, na verdade, não existem.
Kant completou a trajetória moderna, mas com duas inovações fundamentais: em primeiro lugar, transformou a própria teoria do conhecimento em metafísica, ao afirmar que esta investiga as condições gerais da objetividade, isto é, do conhecimento universal e necessário dos fenômenos e, em segundo lugar, demonstrou que o sujeito do conhecimento não é, como pensara Hume, o sujeito psicológico individual, mas uma estrutura universal, idêntica para todos os seres humanos em todos os tempos e lugares, e que é a razão, como faculdade a priori de conhecer ou o Sujeito Transcendental.
Nunca saberemos o que é e como é a realidade em si mesma, separada e independente de nós. Conhecemos apenas a realidade como fenômeno, isto é, organizada pelo sujeito do conhecimento segundo as formas do espaço e do tempo e segundo os conceitos do entendimento. A realidade conhecível e conhecida é aquela posta pela objetividade estabelecida pela razão ou pelo Sujeito Transcendental.
O que é a objetividade? O que é fenômeno? O que é a realidade enquanto objeto ou fenômeno? É a realidade estruturada pelas ideias produzidas pelo sujeito. Por isso a metafísica se torna idealista ou um idealismo. O conhecimento não vem das coisas para a consciência, mas vem das ideias da consciência para as coisas.
A história da metafísica foi sempre o trabalho filosófico para responder a duas perguntas: O que é aquilo que existe? Como podemos conhecer aquilo que existe? Duas foram as respostas: a realista, cujo exemplo mais acabado foi a metafísica de Aristóteles ou o estudo do “Ser enquanto Ser”; e a idealista, cujo exemplo mais acabado foi a crítica  da razão teórica e prática de Kant.
A contribuição da fenomenologia de Husserl
Segundo Husserl, a fenomenologia está encarregada, entre outras, de três tarefas
principais: separar psicologia e filosofia, manter o privilégio do sujeito do
conhecimento ou consciência reflexiva diante dos objetos e ampliar/renovar o
conceito de fenômeno.
Separação entre psicologia e filosofia
No final do século XIX e no início do século XX, muitos pensadores julgaram que a psicologia tomaria o lugar da teoria do conhecimento e da lógica e, portanto, da Filosofia. Na opinião deles, a ciência positiva do psiquismo seria suficiente para explicar as causas das formas de conhecimento e das demonstrações, sem necessidade de investigações filosóficas.
Husserl, porém, veio demonstrar o equívoco de tal opinião.
A psicologia, diz ele, como toda e qualquer ciência, estuda e explica fatos observáveis, mas não pode oferecer os fundamentos de tais estudos e explicações, pois esses cabem à Filosofia.
A psicologia explica, por meio de observações e de relações causais, fatos mentais e comportamentais, isto é, os mecanismos físicos, fisiológicos e psíquicos que nos fazem ter sensações, percepções, lembranças, pensamentos ou que nos permitem realizar ações pelas quais nos adaptamos ao meio ambiente. A Filosofia, porém, difere da psicologia, porque investiga o que é o físico, o fisiológico, o psíquico, o comportamental. Em outras palavras, não explica fatos mentais e de comportamento, mas descreve as essências da vida física e psíquica.
Tomemos um exemplo.
Quando um psicólogo estuda a percepção, procura distinguir dois tipos de fatos: os fatos externos observáveis, a que dá o nome de estímulos (luz, calor, cor, forma dos objetos, distância, etc.), e os fatos internos indiretamente observáveis, a que dá o nome de respostas. Divide o fato perceptivo em estímulos externos e internos (o que acontece no sistema nervoso e no cérebro) e em respostas internas e externas (as operações do sistema nervoso e o ato sensorial de sentir ou perceber alguma coisa).
Quando um filósofo estuda a percepção, procede de modo muito diferente.
Começa perguntando: “O que é a percepção?”, diferentemente do psicólogo, que parte da pergunta: “Como acontece uma percepção?”.
O que é a percepção? Antes de tudo, é um modo de nossa consciência relacionar-se com o mundo exterior pela mediação de nosso corpo. Em segundo lugar, é um certo modo de a consciência relacionar-se com as coisas, quando as toma como realidades quantitativas (cor, sabor, odor, tamanho, forma, distâncias, agradáveis, desagradáveis, dotadas de fisionomia e de sentido, belas, feias, diferentes umas das outras, partes de uma paisagem, etc.). A percepção é uma vivência. Em terceiro lugar, essa vivência é uma forma de conhecimento dotada de estrutura: há o ato de perceber (pela consciência) e há o correlato percebido (a coisa externa); a característica principal do percebido é a de oferecer-se por faces, por perfis ou perspectivas, como algo interminável, que nossos sentidos nunca podem apanhar de uma só vez e de modo total.
O que é a percepção? Ou, em outras palavras, qual é a essência da percepção? É uma vivência da consciência, um ato, cujo correlato são qualidades percebidas pela mediação de nosso corpo; é um modo de estarmos no mundo e de nos relacionarmos com a presença das coisas diante de nós, é um modo diferente, por exemplo, da vivência imaginativa, da vivência reflexiva, etc.
A psicologia nos diz que percepção e nos oferece uma explicação causal para
ela, mas não pode nos dizer o que é a percepção, pois para isso precisaria

conhecer a essência da própria consciência.

MAPAS CONCEITUAIS



domingo, 7 de setembro de 2014

AVALIAÇÃO BIMESTRAL - 3º ano



Filosofia – VA – 3º Bim – III ano
1. (Ufu 2013)  Com efeito, existem a respeito de Deus verdades que ultrapassam totalmente as capacidades da razão humana. Uma delas é, por exemplo, que Deus é trino e uno. Ao contrário, existem verdades que podem ser atingidas pela razão: por exemplo, que Deus existe, que há um só Deus etc.
AQUINO, Tomás de. Súmula contra os Gentios. Capítulo Terceiro: A possibilidade de descobrir a verdade divina. Tradução de Luiz João Baraúna. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p. 61.

Para São Tomás de Aquino, a existência de Deus se prova 
a) por meios metafísicos, resultantes de investigação intelectual.    
b) por meio do movimento que existe no Universo, na medida em que todo movimento deve ter causa exterior ao ser que está em movimento.   
c) apenas pela fé, a razão é mero instrumento acessório e dispensável.    
d) apenas como exercício retórico.
e) com muita oração.
 
2. (Uem 2013)  “Os artigos de fé não são princípios de demonstrações nem conclusões, não sendo nem mesmo prováveis, já que parecem falsos para todos, para a maioria ou para os sábios, entendendo por sábios aqueles que se entregam à razão natural, já que só de tal modo se entende o sábio na ciência e na filosofia.” (OCKHAM, G. [1280-1349]. In:
COTRIM, G. Fundamentos de Filosofia, São Paulo: Saraiva, 2006, p. 120).

A partir do trecho citado, é correto afirmar que
01) os argumentos calcados na fé não podem ser submetidos a demonstrações lógicas.   
02) o filósofo apresenta a típica separação entre aquilo que é do domínio da fé e do domínio da razão para o pensamento medieval.   
04) os artigos de fé são falsos por natureza, visto que não estão submetidos nem à ciência nem à filosofia.   
08) as demonstrações e as conclusões, para os filósofos, não podem ser deduzidas a partir de princípios falsos.   
16) a distinção entre a teologia e a ciência ou a filosofia está, entre outras coisas, nos diferentes procedimentos ou nos métodos de comprovação utilizados por elas.   
 
3. (Ufsj 2013)  Segundo David Hume, “Todo raciocínio abstruso apresenta um mesmo inconveniente”, porque
a) “pode silenciar o antagonista sem convencê-lo; e para nos darmos conta de sua força, precisamos dedicar-lhe um estudo tão intenso quanto o que foi necessário para sua invenção”.   
b) “impregna a mente humana com conceitos do idealismo que o induzem ao holismo moderno”.   
c) “justifica a disposição que a mente humana tem para se inclinar ao silogismo moderno”.   
d) “convida o raciocínio a enigmáticas considerações, direcionando-o ao ceticismo quinhentista”.
e) está evidente aos sentidos.
 
4. (Ufsj 2013)  “Não que acreditemos que Deus exista; pensamos antes que o problema não está aí, no da sua existência [...] os cristãos podem apelidar-nos de desesperados”.

Essa afirmação revela o pensador
a) Thomas Hobbes, defendendo o seu pensamento objetivo de que “o homem deve ser tomado como um elemento de construção da monarquia”.   
b) Nietzsche, perseguindo o direito do homem de tomar posse do seu reino animal e da sua superação e de reconduzir-se às verdades implícitas nele próprio.   
c) Jean-Paul Sartre, desenvolvendo um argumento, no qual chega à conclusão de que o existencialismo é um otimismo.   
d) David Hume, criticando as clássicas provas a favor da existência de Deus.
e) Avicena ao criticar o cristianismo católico.
 
5. (Uem 2013)  “‘Se Deus não existisse, tudo seria permitido’. Eis o ponto de partida do existencialismo. De fato, tudo é permitido se Deus não existe, e, por conseguinte, o homem está desamparado porque não encontra nele próprio nem fora dele nada a que se agarrar. (...) Com efeito, se a existência precede a essência, nada poderá jamais ser explicado por referência a uma natureza humana dada ou definitiva; ou seja, não existe determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade. Por outro lado, se Deus não existe, não encontramos, já prontos, valores ou ordens que possam legitimar a nossa conduta. Assim, não teremos nem atrás de nós, nem na nossa frente, no reino luminoso dos valores, nenhuma justificativa e nenhuma desculpa. Estamos sós, sem desculpas. É o que posso expressar dizendo que o homem está condenado a ser livre.”
(SARTRE, J. P. O existencialismo é um humanismo. Tradução de Rita Correia Guedes. São Paulo: Nova Cultural, 1987, p. 9)
Com base no excerto citado, assinale o que for correto.
01) O existencialismo é uma filosofia teológica que procura a razão de ser no mundo a partir da moral estabelecida.   
02) A afirmação “o homem está condenado a ser livre” é uma contradição, pois não há liberdade onde há a obrigação de ser livre.   
04) O existencialismo fundamenta a liberdade, independentemente dos valores e das leis da sociedade.   
08) Ser livre significa, rigorosamente, ser, pois não há nada que determine o ser humano, a não ser ele mesmo.   
16) A existência de Deus é necessária, pois, sem ele, o homem deixaria de ser livre.   
 
6. (Ufsj 2013)  Na obra “O existencialismo é um humanismo”, Jean-Paul Sartre intenta
a) desenvolver a ideia de que o existencialismo é definido pela livre escolha e valores inventados pelo sujeito a partir dos quais ele exerce a sua natureza humana essencial.   
b) mostrar o significado ético do existencialismo.   
c) criticar toda a discriminação imposta pelo cristianismo, através do discurso, à condição de ser inexorável, característica natural dos homens.   
d) delinear os aspectos da sensação e da imaginação humanas que só se fortalecem a partir do exercício da liberdade.
e) todas as afirmativas são corretas.
 
7. (Upe 2013)  A história da ética, como disciplina filosófica, é mais limitada, no tempo e no material tratado, que a história das ideias morais da humanidade. Esta última história compreende o estudo de todas as normas que regulam o comportamento humano desde os tempos pré-históricos até nossos dias.
VITA, Luís Washington. Introdução à filosofia, 1964, p. 143.

Sobre esse assunto, coloque V nas afirmativas Verdadeiras e F nas Falsas.

(     ) A ética é uma ciência prática e, portanto, sem rigor teórico.
(     ) A ética ou filosofia moral é a parte da estética que se ocupa da reflexão a respeito das noções e dos princípios que fundamentam a vida humana.
(     ) Uma das definições mais corriqueiras da ética ou moral é aquela que se refere ao estudo da atividade humana com relação aos seus fins imediatos, que é a realização plena da humanidade.
(     ) A história da moral serve de objeto de reflexão para a ética, ou seja, a ética parte da diversidade de morais no tempo, com os seus respectivos valores, princípios e normas.
(     ) A filosofia moral se ocupa da conduta humana sob o aspecto, segundo o qual pode ser julgada certa ou errada, virtuosa ou viciosa, boa ou má.

Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA.
a) F, F, F, V, V   
b) F, F, V, V, V   
c) V, F, F, V, V   
d) V, V, F, F, F   
e) F, V, F, F, V   
 
8. (Uem 2013)  “A razão especulativa, porém, embora não possa conhecer o ser em si – abstrato, que não se oferece à experiência e aos sentidos –, pode pensá-lo e coloca problemas que só serão resolvidos no âmbito da razão prática, isto é, no campo da ação e da moral. Ou seja, embora Deus, a liberdade e a imortalidade não possam ser conhecidos (agnosticismo) por não terem uma matéria que se ofereça à experiência sensível, nem por isso têm sua existência negada.”
 (ARANHA, M. L.; MARTINS, M. H. P. Temas de filosofia. 3ª. ed. rev. São Paulo: Moderna, 2005, p. 115)

Sobre o excerto citado, assinale o que for correto.
01) Razão especulativa e razão prática se ocupam dos mesmos objetos.   
02) Nem tudo o que existe pode ser matéria de conhecimento.   
04) A razão prática ocupa-se da moral.   
08) O conhecimento é da ordem do sensível.   
16) A razão prática se confunde com o agnosticismo.   
 
9. (Uem-pas 2012)  As questões religiosas influenciaram diversos aspectos da sociedade europeia medieval. No universo político, por exemplo, perante um poder diluído em virtude da organização feudal da sociedade, a Igreja Católica representava uma instituição com poder unificador. Nos âmbitos cultural e artístico, a construção e a decoração de igrejas, as músicas e os ritos litúrgicos e a exegese dos textos sagrados contribuíram para o florescimento de uma arte sacra. Até mesmo no campo da Filosofia, as discussões eram pautadas por questões religiosas, pois a principal preocupação dos filósofos medievais era conciliar fé e razão. A respeito desses aspectos da sociedade medieval, assinale a(s) alternativa(s) correta(s).
01) A Patrística foi a filosofia e a teologia desenvolvidas pelos padres da Igreja para encontrar justificativas racionais para as verdades reveladas.   
02) A Escolástica dedicou-se, preponderantemente, a produzir teses e discussões inaugurais sobre filosofia, uma vez que, sob a supervisão da Igreja, os filósofos não tinham acesso a textos de autores clássicos.   
04) O Barroco, estilo artístico que reflete o sentimento humano de conflito entre si e a divindade, apareceu no período medieval.   
08) A seita dos Cátaros e a dos Albigenses foram consideradas heréticas porque defendiam doutrinas dualistas que conflitavam com a doutrina católica da ressurreição e o modo de vida levado pelos membros eclesiásticos.   
16) Em A Divina Comédia, o poeta florentino Dante Alighieri resumiu a visão filosófica e o espírito religioso da sociedade medieval. Nessa obra, Alighieri descreve uma viagem imaginária e cheia de simbolismo, por meio do inferno, do purgatório e do paraíso.   
 
10. (Ueg 2012)  Uma pesquisa publicada em março de 2011 informa que o sentimento religioso está diminuindo nos países ricos e que, em algumas décadas, o ateísmo pode se tornar majoritário nessas regiões. Independentemente de concordar ou não com as conclusões da pesquisa, filosoficamente, tal perspectiva pode ser relacionada a
a) Descartes e sua noção de que Deus existe na medida em que existe a ideia de Deus e ela está no homem, mas não veio do homem.   
b) Marx, que definiu a religião como o “ópio do povo”, considerando que as condições materiais interferem nas crenças.   
c) Sartre e a noção existencialista de que todo homem é livre e deve se responsabilizar por essa liberdade.   
d) Spinoza e sua perspectiva de um deus panteísta, um deus que seria as próprias leis da natureza.
e) Fragilidade das autoridades religiosas que tornaram-se complacentes com o delito.
 
11. (Uem 2012)  “Ao instaurar a ruptura entre mythos [mito] e lógos [razão], a cultura ocidental provocou um acontecimento desconhecido em outras culturas: o conflito entre a fé e a razão, que se manifestou desde muito cedo, já na Grécia antiga”
 (CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Editora Ática, 2011. p.332).

Sobre as relações entre fé e razão, assinale o que for correto.
01) Para enfrentar os questionamentos que a filosofia, através da razão, impõe à fé, a religião elabora uma ciência do conhecimento de Deus, isto é, a teologia, segundo a qual o conhecimento de Deus ocorre por meio da razão.   
02) Ludwig Feuerbach considerou a religião como uma expressão da essência transcendental do homem, todavia, condenou a teologia que, segundo ele, deve ser substituída por uma antropologia da religião.   
04) Santo Agostinho considera a fé e a graça como os únicos meios de aproximar-se de Deus e condena a teologia pela prepotência em querer conhecê-lo através da razão.   
08) O deísmo é uma reação à religião revelada. Afirma a existência de um Deus, cujo caráter é uma força, uma energia inteligente, imanente à natureza e que pode ser conhecido pela razão.   
16) Epicuro considerou que a religião não passa de uma fabulação ilusória que os homens criaram por medo da morte e das forças da natureza.   
 
12. (Uem 2011)  A palavra religião vem do latim religio, formada pelo prefixo re (“outra vez, de novo”) e o verbo ligare (“ligar, unir, vincular”). A religião é um vínculo entre o mundo profano e o mundo sagrado. A tentativa para transformar a religião em saber racional chama-se Teologia.

Sobre as relações entre Filosofia e Teologia, assinale o que for correto.
01) Santo Agostinho, na obra As confissões, não admite que a religião possa ser transformada em Teologia, pois a racionalização da religião significaria a destruição da fé.   
02) Para Aristóteles, a metafísica é, ao mesmo tempo, a ciência do ser como tal e a ciência da substância eterna, imóvel e separada, ou seja, Deus, por isso, chamou também a metafísica de Teologia.   
04) O teólogo medieval Guilherme de Ockham desenvolveu uma ética da liberdade que se opõe a uma Teologia, cujo objetivo é legitimar a teocracia.   
08) O teólogo protestante Martin Lutero rompe com a Santa Sé, porque considerava que a Igreja católica apostólica romana não respeitava o princípio teológico do livre-arbítrio.   
16) A religião e a Teologia cristã nunca foram fundamentalistas, pois esta é uma característica da religião islâmica, que é ímpia.   
 
13. (Uem 2009)  Na obra A Essência do Cristianismo, Feuerbach faz uma crítica à religião cristã. Para ele, o homem aliena sua essência na religião, pois os seres humanos se esquecem de que foram os criadores da divindade e invertem a relação quando acreditam que foram criados pelos deuses. Assinale o que for correto.
01) Para Feuerbach, o verdadeiro fundamento do homem é apenas ele mesmo; assim, o único fundamento absoluto de todo pensamento humano é o homem como razão, como vontade, como coração.   
02) A teoria da alienação religiosa de Feuerbach ofereceu uma contribuição importante à filosofia política, particularmente à de Marx.   
04) Feuerbach critica a religião, todavia aceita a teologia, pois acredita que ela pode nos conduzir a um conhecimento racional da essência de Deus.   
08) A crítica de Feuerbach à alienação religiosa levou Marx a aderir à filosofia existencialista de Feuerbach.   
16) Quando Marx declara que a religião é o ópio do povo, ele concorda com Feuerbach que a religião é uma alienação; para Marx, a religião amortece a combatividade dos oprimidos e dos explorados, porque lhes promete uma vida feliz no futuro e no outro mundo.   
 
14. (Ufu 1998)  Para Santo Agostinho, o homem chega à verdade
a) apenas pela fé em Deus.   
b) pelo método alegórico aplicado à interpretação da Bíblia.   
c) pela iluminação divina.   
d) pela recordação da alma que estava junto a Deus.   
e) pelos sentidos e pelo intelecto.   
 
15. (Uem 2013)  Um texto de um filósofo anônimo da Idade Média apresenta de modo claro um problema central para a filosofia e a ciência do seu tempo. Ele afirma: “Boécio divide em três as partes da ciência especulativa: natural, matemática e teológica. Da mesma forma, o Filósofo [isto é, Aristóteles] divide-a em natural, matemática e metafísica. Assim, isto que Boécio chama teologia, o Filósofo chama metafísica. Elas são, portanto, idênticas. Mas a metafísica não é acerca de Cristo. Logo, a teologia também não o é” (Quaestio de divina scientia. In: FIGUEIREDO, V. Filósofos na sala de aula. Vol. 3. São Paulo: Berlendis & Vertecchia, 2008, p. 68). A partir do trecho citado, assinale a(s) alternativa(s) correta(s).
01) A teologia apresenta-se na Idade Média como a ciência principal.   
02) A teologia é objeto da filosofia de Aristóteles, apesar de ela não ter esse nome para ele.   
04) A teologia é uma ciência que não diz respeito à investigação da natureza de Cristo.   
08) A teologia é, para esses filósofos, tão científica quanto a matemática.   
16) A teologia e a metafísica são conhecimentos adquiridos por meio da ciência especulativa.   
 
16. (Ufsj 2013)  Leia atentamente os fragmentos abaixo.

I. “Também tem sido frequentemente ensinado que a fé e a santidade não podem ser atingidas pelo estudo e pela razão, mas sim por inspiração sobrenatural, ou infusão, o que, uma vez aceita, não vejo por que razão alguém deveria justificar a sua fé...”.
II. “O homem não é a consequência duma intenção própria duma vontade, dum fim; com ele não se fazem ensaios para obter-se um ideal de humanidade; um ideal de felicidade ou um ideal de moralidade; é absurdo desviar seu ser para um fim qualquer”.
III. “(...) podemos estabelecer como máxima indubitável que nenhuma ação pode ser virtuosa ou moralmente boa, a menos que haja na natureza humana algum motivo que a produza, distinto do senso de sua moralidade”.
IV. “A má-fé é evidentemente uma mentira, porque dissimula a total liberdade do compromisso. No mesmo plano, direi que há também má-fé, escolho declarar que certos valores existem antes de mim (...).”

Os quatro fragmentos de texto acima são, respectivamente, atribuídos aos seguintes pensadores
a) Nietzsche, Sartre, Hobbes, Hume.   
b) Hobbes, Nietzsche, Hume, Sartre.   
c) Hume, Nietzsche, Sartre, Hobbes.   
d) Sartre, Hume, Hobbes, Nietzsche.
e) Francis Bacon, Roger Bacon, Hume, Hobbes.

QUESTÕES DE ÉTICA
1. (Ufsm 2013)  Leonardo Boff inclui a generosidade como uma pilastra de um modelo adequado de sustentabilidade. Ele a caracteriza do seguinte modo: Generoso é aquele que comparte, que distribui conhecimentos e experiências sem esperar nada em troca. Já os clássicos da filosofia política, como Platão e Rousseau, afirmavam que uma sociedade não pode fundar-se apenas sobre a justiça. Ela se tomaria inflexível e cruel. Ela deve viver também da generosidade dos cidadãos, de seu espírito de cooperação e de solidariedade voluntária.
Considere as seguintes afirmações:

I. Segundo o texto, generosidade e justiça podem ser complementares uma à outra.
II. Segundo o texto, se uma sociedade é inflexível e cruel, então ela está fundada apenas sobre a justiça.
III. Já na ética aristotélica, a generosidade é uma virtude e a extravagância e a avareza são os vícios correlacionados a ela.

Está(ão) correta(s)
a) apenas I.   
b) apenas II.   
c) apenas I e III.   
d) apenas II e III.   
e) I, II e III.   
  
2. (Uem 2013)  Na Ética a Nicômaco, Aristóteles afirma: “Então, quando a amizade é por prazer ou por interesse mesmo, duas pessoas más podem ser amigas, ou então uma pessoa boa e outra má, ou uma pessoa que não é nem boa nem má pode ser amiga de outra qualquer espécie; mas pelo que são em si mesmas é óbvio que somente pessoas boas podem ser amigas. Na verdade, pessoas más não gostam uma da outra a não ser que obtenham algum proveito recíproco” (ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco. In: Filosofia. Vários autores. Curitiba: SEED-PR, 2006, p. 123). A partir do trecho citado, assinale a(s) alternativa(s) correta(s).
01) A amizade comporta uma esfera de interesses particulares.   
02) A amizade, em alguns casos, é consequência de condicionantes pessoais dos amigos.   
04) As amizades desinteressadas não existem, visto que alguém sempre tem a ganhar na relação.   
08) A amizade interessada entre pessoas más também é amizade.   
16) A amizade é falsa quando não há interesse ou prazer na relação.   
 
3. (Ufu 2013)  Autonomia da vontade é aquela sua propriedade graças à qual ela é para si mesma a sua lei (independentemente da natureza dos objetos do querer). O princípio da autonomia é, portanto: não escolher senão de modo a que as máximas da escolha estejam incluídas simultaneamente, no querer mesmo, como lei universal.
KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Tradução de Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70, 1986, p. 85.
De acordo com a doutrina ética de Kant: 
a) O Imperativo Categórico não se relaciona com a matéria da ação e com o que deve resultar dela, mas com a forma e o princípio de que ela mesma deriva.    
b) O Imperativo Categórico é um cânone que nos leva a agir por inclinação, vale dizer, tendo por objetivo a satisfação de paixões subjetivas.    
c) Inclinação é a independência da faculdade de apetição das sensações, que representa aspectos objetivos baseados em um julgamento universal.    
d) A boa vontade deve ser utilizada para satisfazer os desejos pessoais do homem. Trata-se de fundamento determinante do agir, para a satisfação das inclinações.
e) Todas as afirmativas são corretas.    
 
4. (Ufsj 2013)  “Os leitores de jornais dizem: este partido foi destruído devido a esta ou aquela falta que cometeu. Minha política superior contesta: um partido que comete esta ou aquela falta agoniza, não possui a segurança do instinto”.

Esse comentário é emblemático e foi propalado por
a) Joaquim Barbosa, ao condenar cinco réus na sua primeira leitura no escândalo político do mensalão, que assombra o país desde 2005.   
b) Friedrich Nietzsche, ao buscar a explicação para o erro da confusão entre a causa e o efeito.   
c) Jean-Paul Sartre, referindo-se ao partido comunista do início do século XX.   
d) Thomas Hobbes, ao defender o unipartidarismo absoluto.
e) Marx, ao escrever sua obra O Capital.
 
5. (Ufsj 2013)  Ao declarar que “a moral e a religião pertencem inteiramente à psicologia do erro”, Nietzsche pretendeu
a) destruir os caminhos que “a psicologia utiliza para negar ou afirmar a moral e a religião”.   
b) criticar essa necessidade humana de se vincular a valores e instituições herdados, já que “o Homem é forjado para um fim e como tal deve existir”.   
c) denunciar o erro que tanto a moral quanto a religião cometem ao confundir “causa com efeito, ou a verdade com o efeito do que se considera como verdade”.   
d) comprovar que “a moral e a religião estão no imaginário coletivo, mas para se instalarem enquanto verdade elas precisam ser avalizadas por uma ciência institucionalizada”.
e) todas as afirmativas são erradas.
 
6. (Uem 2013)  “A filosofia de Hegel constitui, assim, exemplo de um grandioso e radical investimento especulativo, qualificado como Ideia de liberdade. Ao mesmo tempo em que tem a pretensão de analisar a liberdade segundo um modo conceitual (lógico-ontológico), quer, também, compreendê-la como uma forma histórica de sua manifestação. Ou, dito de outro modo, sem abandonar o seu caráter autorreferencial (subjetivo), o filósofo pretende efetivá-la na sua necessária forma institucional (objetiva). (...) Se a liberdade subjetiva não alcançar essa dimensão e se circunscrever no âmbito dos interesses e desejos particulares dos indivíduos nas suas relações privadas, o próprio princípio da liberdade se vê ameaçado.”
(MARÇAL, J. [org.] Antologia de textos filosóficos. Curitiba: SEED-PR, 2009. p. 309).

Com base na citação anterior, assinale o que for correto.
01) O livre arbítrio constitui uma ameaça para a realização da liberdade.   
02) A liberdade deve ser pensada em dois planos distintos: o primeiro, autorreferencial ou subjetivo, e o segundo, institucional ou objetivo.   
04) A efetividade do Estado e das instituições sociais constitui um obstáculo para os desejos particulares dos indivíduos.   
08) O exercício da liberdade é característico de um processo historicamente definido.   
16) A liberdade é uma síntese da religião com o autoconhecimento.   
 
7. (Unimontes 2013)  O ser humano é responsável pelo equilíbrio ecológico. Deve também ser responsável por evitar o desastre e, consequentemente, o desaparecimento do planeta. Nossa responsabilidade não é só com o momento presente, mas igualmente com as gerações vindouras. Dessa forma, pode-se afirmar que
a) a consciência ecológica deturpa a ideia de que a natureza é um convite para vivermos em harmonia com as demais formas de vida presentes no planeta.   
b) a consciência ecológica nos faz compreender que a natureza é um convite para vivermos em harmonia com as demais formas de vida presentes no planeta.   
c) a consciência ecológica atrapalha a compreensão de que a natureza é um convite para vivermos em harmonia com as demais formas de vida presentes no planeta.   
d) a consciência ecológica é um obstáculo para compreendermos que a natureza é um convite para vivermos em harmonia com as demais formas de vida presentes no planeta.
e) todas as afirmativas são corretas.
 
8. (Upe 2013)  A história da ética, como disciplina filosófica, é mais limitada, no tempo e no material tratado, que a história das ideias morais da humanidade. Esta última história compreende o estudo de todas as normas que regulam o comportamento humano desde os tempos pré-históricos até nossos dias.

VITA, Luís Washington. Introdução à filosofia, 1964, p. 143.

Sobre esse assunto, coloque V nas afirmativas Verdadeiras e F nas Falsas.

(     ) A ética é uma ciência prática e, portanto, sem rigor teórico.
(     ) A ética ou filosofia moral é a parte da estética que se ocupa da reflexão a respeito das noções e dos princípios que fundamentam a vida humana.
(     ) Uma das definições mais corriqueiras da ética ou moral é aquela que se refere ao estudo da atividade humana com relação aos seus fins imediatos, que é a realização plena da humanidade.
(     ) A história da moral serve de objeto de reflexão para a ética, ou seja, a ética parte da diversidade de morais no tempo, com os seus respectivos valores, princípios e normas.
(     ) A filosofia moral se ocupa da conduta humana sob o aspecto, segundo o qual pode ser julgada certa ou errada, virtuosa ou viciosa, boa ou má.

Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA.
a) F, F, F, V, V   
b) F, F, V, V, V   
c) V, F, F, V, V   
d) V, V, F, F, F   
e) F, V, F, F, V   
 
9. (Unesp 2013)  A produção de mercadorias e o consumismo alteram as percepções não apenas do eu como do mundo exterior ao eu; criam um mundo de espelhos, de imagens insubstanciais, de ilusões cada vez mais indistinguíveis da realidade. O efeito refletido faz do sujeito um objeto; ao mesmo tempo, transforma o mundo dos objetos numa extensão ou projeção do eu. É enganoso caracterizar a cultura do consumo como uma cultura dominada por coisas. O consumidor vive rodeado não apenas por coisas como por fantasias. Vive num mundo que não dispõe de existência objetiva ou independente e que parece existir somente para gratificar ou contrariar seus desejos.
(Christopher Lasch. O mínimo eu, 1987. Adaptado.)

Sob o ponto de vista ético e filosófico, na sociedade de consumo, o indivíduo
a) estabelece com os produtos ligações que são definidas pela separação entre razão e emoção.   
b) representa a realidade mediante processos mentais essencialmente objetivos e conscientes.   
c) relaciona-se com as mercadorias considerando prioritariamente os seus aspectos utilitários.   
d) relaciona-se com objetos que refletem ilusoriamente seus processos emocionais inconscientes.   
e) comporta-se de maneira autônoma frente aos mecanismos publicitários de persuasão.   
 
10. (Upe 2013)  Atente ao texto a seguir sobre a dimensão ético-política:

Fala-se hoje, em toda parte e no Brasil, numa “crise” dos valores morais. O sentimento dessa crise expressa-se na linguagem cotidiana, quando se lamenta o desaparecimento do dever-ser, do decoro e da compostura nos comportamentos dos indivíduos e na vida política, ao mesmo tempo em que os que assim julgam manifestam sua própria desorientação em face de normas e regras de conduta cujo sentido parece ter se tornado opaco.
CHAUÍ, Marilena. Ética. 1994, p. 345.
Com relação a esse assunto, analise os itens a seguir:

I. A ética é um sistema ideal de grande nobreza na teoria, mas inaproveitável na prática.
II. A ética é algo inteligível somente no contexto da religião, pois, nesse contexto, a consciência religiosa responde quanto aos fundamentos dos princípios morais.
III. A moral regulamenta as relações mútuas entre os indivíduos e entre estes e a comunidade, enquanto a política abrange as relações entre grupos humanos (classes, povos ou nações).
IV. O homem pode renunciar à moral, porque esta não corresponde a uma necessidade social; de igual modo, pode renunciar à política, porque esta não responde a uma necessidade social.
V. A realização da moral como concretização de certos princípios coloca a necessidade de relacioná-los com as condições sociais às quais se referem, com as aspirações e interesses que os inspiram e com o tipo concreto de relações humanas que pretendem regulamentar.
Estão CORRETOS
a) apenas I, II, III e V.   
b) apenas II, III, IV e V.   
c) apenas III, IV e V.   
d) I, II, III, IV e V.   
e) apenas III e V.   
  
11. (Uem-pas 2012)  “Na abertura de sua obra Política, Aristóteles afirma que somente o homem é um ‘animal político’, isto é, social e cívico, porque somente ele é dotado de linguagem. Os outros animais, escreve Aristóteles, possuem voz (phoné) e com ela exprimem dor e prazer, mas o homem possui a palavra (lógos) e, com ela, exprime o bom e o mau, o justo e o injusto. Exprimir e possuir em comum esses valores é o que torna possível a vida social e, dela, somente os homens são capazes.” (CHAUÍ, M. Convite à Filosofia. 14ª edição. São Paulo: Ática, 2011, p. 185). A partir dessa reflexão sobre o homem e a linguagem, assinale o que for correto.
01) O homem se distingue dos animais porque possui linguagem simbólica, isto é, capaz de estabelecer ligações entre os signos e as coisas.   
02) Expressões artísticas, como a pintura, a fotografia e a dança, não podem ser consideradas formas de linguagens.   
04) A linguagem é um instrumento político, pois o domínio da linguagem culta é uma forma de segregação entre distintas classes sociais.   
08) A Lógica se distingue da linguagem natural porque não se ocupa com a significação dos conteúdos do pensamento, mas sim com sua expressão formal.   
16) Palavras “tabu” são aquelas proibidas de serem pronunciadas, sob pena de punição, como forma de reforçar laços sociais e reprimir costumes.